sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ouve só o barulho do mar

O segundo exercício sugerido pelo livro é que se fale sobre um lugar ou um objeto que inspire o gosto do escritor. Pensei em escrever sobre o mar, mas como é tão difícil a tarefa de separar o sujeito do objeto, eis o resultado da reflexão...


OUVE SÓ O BARULHO DO MAR

“Ouve só o barulho do mar!”, dizia-me minha avó, aproximando uma conchinha de meu ouvido. Eu me deliciava com o som das ondas quebrando na areia, e imaginava a espuma branca, formada pela agitação das águas, despedaçando-se no ar em pequenas bolhas. Aquela concha era um objeto místico. Parecia possuir ligação direta com o mar ou conter a degravação perfeita de seu humor. Nuns dias, conseguia ouvi-lo agitado e furioso, revolvendo com força o solo dos bancos de areia e lançando-se com vagas fortes contra o litoral. Noutros, parecia que se acalmava como uma lagoa, e exibia ondas suaves e esverdeadas repletas de peixes enluarados e com grossas escamas.

Dia desses achei aquela conchinha, meio espedaçada, no fundo de um armário. Sabe aquele local em que enfiamos os objetos que não podem ser classificados ou catalogados em nenhuma espécie ou subclasse? Pois lá estava ela, com umas e outras relíquias acumuladas durante os anos de infância (que tal um caco das ruínas de São Miguel?). É daquelas coisas que as mudanças e as arrumações preservam inconscientemente na gaveta das recordações e de outros cacarecos. Encheu-me os olhos de lágrimas vê-la em pedaços, ver a minha infância em pedaços, saber que nunca mais a colocaria no sopé do ouvido e sentiria a magia de escutar o mar de tão longe. Aquela conchinha era minha lembrança viva que se fragmentara. Eu - pensava com os cacos na mão -, que já não sorvia aquele prazer mágico, estaria fadado a esquecê-lo. Nunca mais o sentiria nem enquanto lembrança.

A criança cresce, e o mundo de poesia acaba relegado à categoria das memórias saborosas, na prateleira dos sorvetes de uva e dos banhos de mangueira. Há objetos e pessoas que representam muito mais que sua materialidade: são como se fossem nós mesmos, seu fenecimento é nem que fosse nossa própria morte, morrendo por partes. Em linhas gerais, representam aquele tempo de fantasia em que nossos sentidos, por ainda não terem avistado a insipidez da realidade, teimam em acreditar nalguns gostosos absurdos. Minha avó era como aquela concha, a representação mais acesa de uma magia antiga e infante. Quebrou-se a concha, partiu minha avó: parti-me.

Quando a dor da ausência vai embora, é possível enxergar que nada está perdido, e que a solução para manter a essência dessa pueril magia é justamente repeti-la de outras maneiras e para outras pessoas. Não coloco mais aquela conchinha no ouvido. Não poderia, ela está definitivamente despedaçada. Mas vou à beira do mar admirar sua fúria e sua suavidade, colocar os pés na areia fria, arrancar-lhe uns peixes e ver o sol nascer por detrás das nuvens, transformando-o numa bacia reluzente. Não posso mais abraçar minha avó, ouvir sua voz meiga e sentir seu perfume de acalanto. Quando quero, vou à praça em que ela descansa, lá no meio dos jacarandás do bairro Moinhos de Vento, e fico sentando numa pedra lembrando de toda a vida que ela soprou em mim, pensando que hoje ela vive muito mais do que antes, metamorfoseada naquilo que sou e naquilo que talvez um dia eu consiga ser.

3 comentários:

Anônimo disse...

Quase não enxergava as últimas linhas de tantas lágrimas...
Saudades...

Anônimo disse...

Gui a´tua vó Nicinha onde estiver deve estar orgulhosa deste neto, que nunca vai esquece-la.
Assim eu também me sinto ao ler as maravilhas que escreves. Deus te deu este dom. Não os desperdice.Continua em frente.
Talvez com mais cronicas, pois fico todos os dias esperando por novas.
Eu te amo muito
Marise

Bruno Alcalde disse...

Eita! Comentários técnico-artísticos apenas pessoalmente. Juízos de valor da mesma forma.

Abraço!