O primeiro exercício sugerido pelo livro é que se descreva, com certas minúcias, alguém da família do escritor. Segue logo abaixo o texto que me veio à mente. Seu título é...
OLHOS TRISTES
Miss Marple. Minha bisavó me lembrava a Miss Marple. Não sei por quê. Talvez pela pequenez corporal, os cabelos brancos, quase transparentes. O olhar ardiloso e brilhante que se escondia por detrás dos óculos, o vestido estampado com flores coloridas e as mãos sempre atadas uma à outra, dando a impressão de estarem de par com maquinações de sua mente.
Ela morreu tarde – e muito a contragosto! Dependesse dela, teria deixado esta vida dez, quinze anos antes, junto ao meu bisavô. Aliás, que casal! Mesmo depois dos oitenta, uma noite de lua cheia continuava sendo perfeita para poesias e canções no parapeito da janela, braços dados e cabeça no ombro. Uma paixão sem ponto final, que muito justificava a amargura que arrebatou minha bisavó depois da partida de seu companheiro. Vó Margarida era uma flor que murchara da noite para o dia, e que, pétalas espedaçadas, não tinha mais sol ou água que a reanimassem. Era flor ao vento, e do vento esperava que lhe levasse, de preferência o mais cedo possível.
Também é verdade que a tristeza sempre foi, aos seus olhos, algo belo e apreciável; não surgiu com a morte de meu bisavô. Adorava poemas tristes e chorosos, amava músicas sofridas e depressivas, lindas evidentemente. A melancolia parecia lhe ressaltar certa beleza da realidade, uma beleza que só ela podia auscultar e apreciar. Para ela, tudo era sempre amarelecido e outonal – e isso era maravilhoso! Tinha alma de poeta, e como tal legou algumas belas poesias para sua família. A última foi escrita no ano em que meu bisavô morreu, e é intitulada “Último soneto”, que assim encerra: “Não mais escreverei outra poesia / Levaste contigo a minha inspiração / Eras o primeiro a ver, com euforia, / Minhas rimas tão pobres de expressão”. Desde então, sua vida deixara de ser poesia, ainda que triste, e se tornara ladainha.
Seus olhos tristes gostavam de palavras – e como gostavam! Ao longo da vida leu mais de mil livros, mesmo quando os problemas da idade teimavam em lhe escurecer a vista. Talvez esta tenha sido a principal razão do brilho ininterrupto de seus olhos e de ter mantido o raciocínio ardiloso depois dos noventa anos de idade. O corpo parecia fenecer aos poucos, apequenando-se ainda mais com o passar do tempo, mas a mente mantinha-se viva, perspicaz e afiada. Era esperta e sagaz, sabia muito bem como realizar suas próprias vontades pelas mãos e pelos braços dos outros. Não que isso fosse um defeito ou uma qualidade; era simplesmente o seu jeito.
Ela possuía, ademais, um arsenal de manias, algumas desde sempre, outras desde a velhice. Costumava, por exemplo, esconder dinheiro dentro de todos os bolsos de suas roupas, o que transformava seu armário num cofre bancário particular. Não sei se era para se assegurar de que, escolhendo um ou outro vestido, uma ou outra jaqueta de lã, teria sempre meia dúzia de notas para comprar doces ou pães na padaria, ainda que esquecesse a bolsa. O fato é que depois de deixar sua casa e habitar alguns lares geriátricos por vontade própria, teve seus armários assaltados por acompanhantes e enfermeiras, que não se constrangiam em remexer nas roupas e furtar os poucos trocados que a aposentadoria lhe reservava.
Ah, eu tenho algumas boas recordações de minha bisavó. As dezenas de envelopes com dinheiro nos Natais e aniversários… as conversas noturnas quando dormíamos juntos, logo que meu bisavô faleceu… os copos Duralex com guaraná frisante Polar… as declamações de poesias nos encontros familiares… as balinhas de leite e caramelo no armário de sua sala… Lembranças da minha infância mais distante e primitiva, que, escondidas tão profundamente dentro de mim, às vezes não exprimem o quanto de importância possuem. O tempo que as soterra é o mesmo que as revela.
Não sei o que dela é meu. Talvez o gosto neurótico pela leitura, a compulsão em comprar livros e em apreciar palavras. Eu adorava ouvir suas poesias, principalmente as tristes… Agora me ocorreu: acho que um pouco de seu ar melancólico também pertence a mim, a compreensão de que o triste também pode ser bonito. Ora, os meus dias prediletos são os nublados e ventosos, que dão a impressão de que o tempo está voando com as folhas e os papéis amassados. Gosto de filmes sombrios, adoro livros com finais que apertam o peito – alguém já leu o fantástico “Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo? Não sei. O outono tem tanta beleza… Prefiro as árvores amarelecidas às verdes, o barulho do vento ao dos pássaros. Seria esse, para mim, o legado de minha bisavó? Talvez. E não nego a sua beleza, sem dúvida alguma.
Vó Margarida foi costureira, pessoa relativamente pobre, mas que soube ver pelas lentes do amor, da poesia e da rotina a beleza de viver – ainda que com olhos tristes e outonais.
terça-feira, 24 de julho de 2007
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3 comentários:
Lindo, Gui...
Ontem mesmo fomos na Feira do Livro... O dia estava lindo, mas no início da tarde quase que o tempo vira e o dia se fecha...
Seria então teu dia perfeito: cinza e em meio a milhares de livros..
E, claro, com a Rê!!
"..."
Gui, achei por acaso teu blog, e hoje dia 24/12, chorei lendo e relembrando minha mãe. Lindo o que escrevestes sobre ela e me deu saudades dos meus tempos junto a ela.
E fiquei muito feliz, poque está nascendo um escritor, com toda a sensibilidade que eu sempre vi que existia neste coraçãozinho tão querido. Um beijo, neto querido.
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