quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Vida


"Coisa engraçada é a vida - este misterioso arranjo de lógica implacável para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si próprio - que chega tarde demais - uma colheita interminável de arrependimentos".

Joseph Conrad

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Ouve só o barulho do mar

O segundo exercício sugerido pelo livro é que se fale sobre um lugar ou um objeto que inspire o gosto do escritor. Pensei em escrever sobre o mar, mas como é tão difícil a tarefa de separar o sujeito do objeto, eis o resultado da reflexão...


OUVE SÓ O BARULHO DO MAR

“Ouve só o barulho do mar!”, dizia-me minha avó, aproximando uma conchinha de meu ouvido. Eu me deliciava com o som das ondas quebrando na areia, e imaginava a espuma branca, formada pela agitação das águas, despedaçando-se no ar em pequenas bolhas. Aquela concha era um objeto místico. Parecia possuir ligação direta com o mar ou conter a degravação perfeita de seu humor. Nuns dias, conseguia ouvi-lo agitado e furioso, revolvendo com força o solo dos bancos de areia e lançando-se com vagas fortes contra o litoral. Noutros, parecia que se acalmava como uma lagoa, e exibia ondas suaves e esverdeadas repletas de peixes enluarados e com grossas escamas.

Dia desses achei aquela conchinha, meio espedaçada, no fundo de um armário. Sabe aquele local em que enfiamos os objetos que não podem ser classificados ou catalogados em nenhuma espécie ou subclasse? Pois lá estava ela, com umas e outras relíquias acumuladas durante os anos de infância (que tal um caco das ruínas de São Miguel?). É daquelas coisas que as mudanças e as arrumações preservam inconscientemente na gaveta das recordações e de outros cacarecos. Encheu-me os olhos de lágrimas vê-la em pedaços, ver a minha infância em pedaços, saber que nunca mais a colocaria no sopé do ouvido e sentiria a magia de escutar o mar de tão longe. Aquela conchinha era minha lembrança viva que se fragmentara. Eu - pensava com os cacos na mão -, que já não sorvia aquele prazer mágico, estaria fadado a esquecê-lo. Nunca mais o sentiria nem enquanto lembrança.

A criança cresce, e o mundo de poesia acaba relegado à categoria das memórias saborosas, na prateleira dos sorvetes de uva e dos banhos de mangueira. Há objetos e pessoas que representam muito mais que sua materialidade: são como se fossem nós mesmos, seu fenecimento é nem que fosse nossa própria morte, morrendo por partes. Em linhas gerais, representam aquele tempo de fantasia em que nossos sentidos, por ainda não terem avistado a insipidez da realidade, teimam em acreditar nalguns gostosos absurdos. Minha avó era como aquela concha, a representação mais acesa de uma magia antiga e infante. Quebrou-se a concha, partiu minha avó: parti-me.

Quando a dor da ausência vai embora, é possível enxergar que nada está perdido, e que a solução para manter a essência dessa pueril magia é justamente repeti-la de outras maneiras e para outras pessoas. Não coloco mais aquela conchinha no ouvido. Não poderia, ela está definitivamente despedaçada. Mas vou à beira do mar admirar sua fúria e sua suavidade, colocar os pés na areia fria, arrancar-lhe uns peixes e ver o sol nascer por detrás das nuvens, transformando-o numa bacia reluzente. Não posso mais abraçar minha avó, ouvir sua voz meiga e sentir seu perfume de acalanto. Quando quero, vou à praça em que ela descansa, lá no meio dos jacarandás do bairro Moinhos de Vento, e fico sentando numa pedra lembrando de toda a vida que ela soprou em mim, pensando que hoje ela vive muito mais do que antes, metamorfoseada naquilo que sou e naquilo que talvez um dia eu consiga ser.

domingo, 23 de setembro de 2007

Identidade


"Que somos nós para nós mesmos? Sonhos que passam na bruma, lugares onde há angústia... O que fazemos não queremos; é querido em nós por qualquer de nós alheio a nós".

Fernando Pessoa

terça-feira, 24 de julho de 2007

Olhos tristes

O primeiro exercício sugerido pelo livro é que se descreva, com certas minúcias, alguém da família do escritor. Segue logo abaixo o texto que me veio à mente. Seu título é...


OLHOS TRISTES

Miss Marple. Minha bisavó me lembrava a Miss Marple. Não sei por quê. Talvez pela pequenez corporal, os cabelos brancos, quase transparentes. O olhar ardiloso e brilhante que se escondia por detrás dos óculos, o vestido estampado com flores coloridas e as mãos sempre atadas uma à outra, dando a impressão de estarem de par com maquinações de sua mente.

Ela morreu tarde – e muito a contragosto! Dependesse dela, teria deixado esta vida dez, quinze anos antes, junto ao meu bisavô. Aliás, que casal! Mesmo depois dos oitenta, uma noite de lua cheia continuava sendo perfeita para poesias e canções no parapeito da janela, braços dados e cabeça no ombro. Uma paixão sem ponto final, que muito justificava a amargura que arrebatou minha bisavó depois da partida de seu companheiro. Vó Margarida era uma flor que murchara da noite para o dia, e que, pétalas espedaçadas, não tinha mais sol ou água que a reanimassem. Era flor ao vento, e do vento esperava que lhe levasse, de preferência o mais cedo possível.

Também é verdade que a tristeza sempre foi, aos seus olhos, algo belo e apreciável; não surgiu com a morte de meu bisavô. Adorava poemas tristes e chorosos, amava músicas sofridas e depressivas, lindas evidentemente. A melancolia parecia lhe ressaltar certa beleza da realidade, uma beleza que só ela podia auscultar e apreciar. Para ela, tudo era sempre amarelecido e outonal – e isso era maravilhoso! Tinha alma de poeta, e como tal legou algumas belas poesias para sua família. A última foi escrita no ano em que meu bisavô morreu, e é intitulada “Último soneto”, que assim encerra: “Não mais escreverei outra poesia / Levaste contigo a minha inspiração / Eras o primeiro a ver, com euforia, / Minhas rimas tão pobres de expressão”. Desde então, sua vida deixara de ser poesia, ainda que triste, e se tornara ladainha.

Seus olhos tristes gostavam de palavras – e como gostavam! Ao longo da vida leu mais de mil livros, mesmo quando os problemas da idade teimavam em lhe escurecer a vista. Talvez esta tenha sido a principal razão do brilho ininterrupto de seus olhos e de ter mantido o raciocínio ardiloso depois dos noventa anos de idade. O corpo parecia fenecer aos poucos, apequenando-se ainda mais com o passar do tempo, mas a mente mantinha-se viva, perspicaz e afiada. Era esperta e sagaz, sabia muito bem como realizar suas próprias vontades pelas mãos e pelos braços dos outros. Não que isso fosse um defeito ou uma qualidade; era simplesmente o seu jeito.

Ela possuía, ademais, um arsenal de manias, algumas desde sempre, outras desde a velhice. Costumava, por exemplo, esconder dinheiro dentro de todos os bolsos de suas roupas, o que transformava seu armário num cofre bancário particular. Não sei se era para se assegurar de que, escolhendo um ou outro vestido, uma ou outra jaqueta de lã, teria sempre meia dúzia de notas para comprar doces ou pães na padaria, ainda que esquecesse a bolsa. O fato é que depois de deixar sua casa e habitar alguns lares geriátricos por vontade própria, teve seus armários assaltados por acompanhantes e enfermeiras, que não se constrangiam em remexer nas roupas e furtar os poucos trocados que a aposentadoria lhe reservava.

Ah, eu tenho algumas boas recordações de minha bisavó. As dezenas de envelopes com dinheiro nos Natais e aniversários… as conversas noturnas quando dormíamos juntos, logo que meu bisavô faleceu… os copos Duralex com guaraná frisante Polar… as declamações de poesias nos encontros familiares… as balinhas de leite e caramelo no armário de sua sala… Lembranças da minha infância mais distante e primitiva, que, escondidas tão profundamente dentro de mim, às vezes não exprimem o quanto de importância possuem. O tempo que as soterra é o mesmo que as revela.

Não sei o que dela é meu. Talvez o gosto neurótico pela leitura, a compulsão em comprar livros e em apreciar palavras. Eu adorava ouvir suas poesias, principalmente as tristes… Agora me ocorreu: acho que um pouco de seu ar melancólico também pertence a mim, a compreensão de que o triste também pode ser bonito. Ora, os meus dias prediletos são os nublados e ventosos, que dão a impressão de que o tempo está voando com as folhas e os papéis amassados. Gosto de filmes sombrios, adoro livros com finais que apertam o peito – alguém já leu o fantástico “Trabalhadores do Mar”, de Victor Hugo? Não sei. O outono tem tanta beleza… Prefiro as árvores amarelecidas às verdes, o barulho do vento ao dos pássaros. Seria esse, para mim, o legado de minha bisavó? Talvez. E não nego a sua beleza, sem dúvida alguma.

Vó Margarida foi costureira, pessoa relativamente pobre, mas que soube ver pelas lentes do amor, da poesia e da rotina a beleza de viver – ainda que com olhos tristes e outonais.

Trabalhos de Hércules

Neste blog tentarei cumprir com exatidão os quase 60 exercícios iniciais para o "escritor criativo" sugeridos por Beth Joselow em seu tão conhecido livro "Writing Without the Muse" (Ashland: Story Line Press, 1999). São registros próprios que têm por fito aprimorar a minha capacidade de escrever - que, aliás, tão aprisionada está ao vocabulário e ao 'estilo literário' dos advogados e suas petições... A leitura é para poucos. "Sua crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela" (M.A.).

Aos trabalhos!